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“Budja Ba” – Melech Mechaya

Março 9th, 2010 | versão papel versão papel

Assim sim!
Em Setembro de 2008, sobre o EP de estreia do grupo, dizia por aqui que os Melech Mechaya deviam ser proibidos de editar EPs. Dizia ainda que ouvir o EP “Melech Mechaya” era “como ir ao baile e vir embora a meio por falta de electricidade ou por alguma hecatombe meteorológica. “Melech Mechaya” é rápido como um foguete, passa depressa, deixando atrás de si um rasto de festa e alegria, mas também de tristeza pelo prazer tão efémero.” Pois bem, chegados a 2009, a festa recomeçou, durando agora o tempo necessário para nos convencer. Em resumo, é a festa que se esperava. Uma festa inteira.
Em abstracto, e não sendo fácil explicá-lo, há música que é muito mais do que isso; pelo que é; pelo que representa. É algo racional, com sentido, que vem de dentro e a torna viva, realista. É algo quase espiritual. “Budja Ba” tem muito dessa experiência espiritual. E não é só pelo principal caminho estético seguido, o estranho e judaico klezmer, mas por tudo o resto; o sentimento, a energia e a forma como a música cumpre o seu objectivo. Totalmente.
Essencialmente klezmer, com tradicionais e originais dos Melech Mechaya, “Budja Ba” é ainda assim uma ampla viagem por latitudes e longitudes várias, comprovando a forma aberta e exploratória como o grupo olha para a sua música.  São passos que se dão bem para lá do centro e leste europeu. Não há aqui uma realidade fechada, muito pelo contrário. Há outras influências, outros continentes a marcarem a respiração de “Budja Ba”, sendo isso que nos atrai ainda mais na arte do grupo de João Graça – violino, Miguel Veríssimo – clarinete, André Santos – guitarra, João Sovina – contrabaixo – e Francisco Caiado – percussão. Com produção do próprio grupo, “Budja Ba” contou ainda como convidadas com as Tucanas, na voz, percussões e acordeão, e com Noémia Santos, Ana Sousa e Irina Santos, todas na voz.
Uma experiência impossível de ignorar.

Ouvir Melech Mechaya no MySpace

capa de Budja Ba
“Budja Ba” – Melech Mechaya (Ovação, 2009)

01 Dodi Li
02 Fanfarra
03 Bulgar De Almada
04 Nigun 7
05 Dança Do Desprazer
06 Sweet Father
07 (Rad Halaila)
08 Budja Ba
09 Fado Tantz
10 Na Festa Do Rabi
11 Freylach 6.8
12 Hava Nagila
13 (Melodia Da Rua)
14 Cravineiro
15 Sabituar
16 Harmónica

género: world
www.ovacao.pt

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“Nazca Lines” – Magina

Fevereiro 22nd, 2010 | versão papel versão papel

Pela Pampa Colorada abaixo, de braços dados com os Andes e o mar, o povo peruano Nazca desenhou enormes figuras de linhas direitas, só perfeitamente perceptíveis de vista aérea – entre os séculos III a.c. e VIII d.c.. Logo por isto, é com alguma curiosidade que se entra por “Nazca Lines” adentro, disco de estreia de Magina, um dos lados dos surpreendentes Aquaparque. E a razão, se a existe, prende-se com um certo mistério, com a razão nunca desvendada de linhas tão extensas e tão sem sentido quando olhadas do solo. “Nazca Lines” explora essa extensão linear, recta, condensada numa base que adensa todo o mistério. “Nazca Lines” também é um disco misterioso. Marcadamente ambiental, “Nazca Lines” facilita uma dupla perspectiva, não se fechando num movimento horizontal, numa travessia terrena, mas seguindo também num movimento vertical, de uma dimensão espacial. É lá que ficamos com “The Love There That’s Sleeping”. “Nazca Lines” é um disco de curtas paisagens, nascidas de um confronto feliz de Magina com os seus teclados. É deles que nasce esta aventura planante, de pormenores melódicos de uma simplicidade fulminante, até popular;  cruzados com outros de  uma evidência claramente futurista. Neste sentido, André Abel diz na nota de imprensa, com alguma piada mas também com algum realismo, que “Nazca Lines” se situa “algures entre Richard Clayderman e Jean-Michel Jarre a degladiarem-se por qual a melhor releitura da banda-sonora de ‘Chariots of Fire’ de Vangelis“. Sabe a pouco, e isso é que é pena. O disco foi produzido e gravado por Pedro Magina e misturado e masterizado por Carlos Lopes.
Dizer ainda que “Nazca Lines” é editado hoje, pela editora francesa Ruralfaune – com distribuição prevista para os EUA, Japão e resto da Europa, numa edição especial e limitada a 50 cópias. Ao vivo, o músico vai estar no próximo dia 6 Março no Café Au Lait (18h30), no Porto; e no dia 10 de Março, no Lounge (22h30), em Lisboa.

Ouvir Magina no MySpace

capa de Nazca Lines
“Nazca Lines” – Magina (Ruralfaune, 2010)

01 She’s Behind Me
02 Heads Across the Sky
03 The Love There That’s Sleeping

género: alternativa
www.myspace.com/disquesruralfaune
www.myspace.com/ruralfaunesynthseries

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“Muda Que Muda” – João Coração

Fevereiro 13th, 2010 | versão papel versão papel

Há algo neste João de Lisboa que virá sempre do coração: a palavra. É uma constatação que vem do anterior “Nº1 – Sessão de Cezimbra” (FlorCaveira, 2008) e que se  mantém naturalmente transversal à música de João Coração. “Muda Que Muda” mantém essa ideia central. As coisas dizem-se porque há uma razão para se dizerem e porque há uma necessidade concreta de as compreender. E “Muda Que Muda” é um disco de palavra. Mais e melhor ainda. Mas não só.
João Coração tem muitos amigos e isso reflecte-se na sua música. Positivamente. Felizmente. Com João Coração, estão neste disco João Pinheiro e David Pires, na bateria e percussão, Miguel Gelpi no contrabaixo, Walter Benjamin na melódica, Manel Dordio na guitarra, Zaca no trompete e Lúcia Vaz Pato e Filipe Sambado no coro. Reflecte-se essencialmente no cuidado trabalho melodioso que atravessa todo o disco, percebendo-se isso claramente, e só por exemplo,  em “Muda Que Muda”, o tema que dá título ao disco, até na deliciosa vénia a “Road to Nowhere” dos Talking Heads. Mais luminoso, mais melodioso, “Muda Que Muda” transporta uma outra forma de João Coração ver os seus dias. Parecem diferentes, mais arejados. Todo o disco é um pequena delícia  sonora compactada em 40 minutos de prazenteira audição – sem ignorar o 2º Lado B oferecido para download.
“Muda Que Muda” é ainda marcado pelo sussurrar de João Coração. João Coração não grita para uma invisível multidão à sua volta; ele sopra para quem à sua frente se sentou de pernas cruzadas para o ouvir. Com toda a atenção. Com todo o prazer. É de novo aquele sussurrar do coração.
Embrulhado num manto de canções pop de influências country-folk e outras, “Muda Que Muda” é um belo álbum; registo final de uma mudança serena e acertada. Uma mudança para melhor.

Ouvir João Coração no MySpace

capa de Muda Que Muda
“Muda Que Muda” – João Coração (Florcaveira, 2009)

01 Canção para ficar
02 Passo a passo
03 Muda que muda
04 Abalada farewell
05 Sofia
06 Cadeiras Ocidentais
07 O avesso do começo
08 Istambul ou Budapeste
09 Abre a janela

género: pop
joaocoracao.caixaforte.org
www.florcaveira.com
www.myspace.com/florcaveira

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“La Résistance” – Ölga

Fevereiro 2nd, 2010 | versão papel versão papel

Qual camaleão, cobra de pele mudada, os Ölga de 2009 são uma surpresa. Agradável para uns, talvez desagradável para outros, para muitos, estão apenas diferentes. “La Résistance” significa uma outra forma de pensar a música. Talvez fruto de uma evolução natural, resultado de um processo maturativo muito próprio, os Ölga de “Ö” (Bor Land, 2004) e “What Is” (Bor Land, 2005) vivem hoje numa outra onda. E isso parece claro.
“La Résistance” é um disco de detalhes; pequenos; genuínos. Na verdade, não se perde a intensidade de outros tempos, muito pelo contrário, ela é hoje muito mais focada, mais fina. Os Ölga de hoje estão longe da diversão experimental e improvisada de outros tempos, da imagética sónica, da poesia puramente instrumental. Os Ölga de hoje, alternativos como sempre, centram-se essencialmente num psicadelismo floreado, pura filigrana sonora, revivalista, onde a voz e a palavra ganham um peso nunca antes observado. Votaram-se às canções. Seguiram outro caminho. Apenas. De outra forma, Diogo Luiz (bateria), João Hipólito (baixo, guitarra e vozes) e João Teotónio (guitarra, teclados e voz) estão mais convencionais mas igualmente intensos e interessantes.
Do ido apelo aos sentidos ao actual apelo à alma. É assim “Lá Résistance”.

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capa de La Résistance
“La Résistance” – Ölga (Skinpin Records, 2009)

01 Elephants
02 It’s Alright
03 Last Call
04 Neon
05 Mirror Bowling
06 Take Us All
07 Blue Poem
08 Kiss The Fall
09 Magic Room
10 Miss Booty
11 Ben Hur

género: rock
olgamusic.com

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“Vendaval” – Men Eater

Janeiro 15th, 2010 | versão papel versão papel

Com muita personalidade. Essencialmente.
Não é só a música em si que sobressai em “Vendaval”, é também a vincada personalidade colocada pelo grupo no seu processo criativo; no seu processo interpretativo. Se o anterior “Hellstone” (Raging Planet, 2007) marcou pontos na cena underground nacional, “Vendaval” é a marca clara de uma evolução; mais centrados numa ideia e na sua realização; menos dispersos estilisticamente. É uma ideia centrada num rock pesado, mas menos violento; mais sujo, ao contrário da limpidez de partes do anterior; mas sempre com guitarras imperadoras imoladas sobre uma bateria que não se esconde. Sob produção de Makoto Yagyu, os 12 temas de “Vendaval” tem a marca de um vibrante rock’ n roll, mais clássico que o anterior “Hellstone”, mas de igual e inquestionável qualidade.
O que a banda de Mike Ghost (guitarra e voz), Carlos BB (bateria), João J. (baixo e voz) e Carlos A. (guitarra e voz) fez, foi um disco de uma segurança reveladora, envolvente e de uma intensidade que não nos deixa indiferentes. Se é verdade que a extrema coerência do disco transforma-o por vezes em algo pouco variável no seu todo, tal linearidade é compensada posteriormente com uma energia única, capaz de fazer esquecer tudo o resto. Mesmo tudo.
Uma tempestade de luz!

Ouvir Men Eater no MySpace

capa de Vendaval
”Vendaval” – Men Eater (Raging Planet, 2009)

01 First Season
02 Heartbeating Locomotiva
03Man Hates Space
04 Quatero
05 Drunk Flies Drugged Souls
06 Last Season
07 1200
08 Medusa
09 Novee
10 Coldest Tide
11 Queen of A Million
12 Dead at Sea

género: rock
www.myspace.com/ragingplanetrecordsportugal

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“Same Old Fancy Show / 01-05″ – Interm.Ission

Janeiro 4th, 2010 | versão papel versão papel

Para acabar com as intermitências? Ou para fechar um ciclo? talvez as duas.
Depois de vários singles e EPs editados entre 2003 e 2009, chegou finalmente o longa-duração dos Interm.Ission. Chegou o resto do corpo. Em boa verdade, chegou o momento de conjugar e articular os pedaços de história que o trio barcelense tem lançado ao vento nos últimos anos. É o que este “Same Old Fancy Show / 01-05″ é. É o disco retrospectiva dos primeiros quatro anos de produção dos Interm.Ission. É o registo esperado e necessário para conferir, finalmente, uma lógica às ideias do grupo nortenho. Em resumo, são oito temas registados nos estúdios Oops! no já longínquo Novembro de 2005. Veio tarde mas veio. E ainda bem.
Sobre o som, a surpresa não é grande. Acima de tudo, é importante realçar que se confirmam todas as boas suspeitas apresentadas há três anos, quando  por aqui nos debruçámos sobre o single “Make No Mistake on a Strange Way” – “Tendency For Sights ” no lado B. Não foi fogo de vista o que na altura  se pressentiu. E isso é bom. Muito bom. Na altura pediu-se o resto, pois ele aí está. E o resto do corpo confirma as melodias cativantes, a leveza com que assentam no ouvido, com toda a sua magnitude alternativa. As palavras dizem-se em inglês e tal como se disse há tempos atrás, confirma-se a firmeza na construção – incluindo os arranjos, sustentada por uma voz fortemente carismática. É extraordinária a forma com a voz de Filipe Miranda enche o espaço disponível, funcionando claramente como mais um instrumento. É apenas um trio, mas enche o quadro de uma forma reveladora, quente, nunca perdendo a tez eléctrica que verdadeiramente o caracteriza. Electricidade intimidade. Boa música; boa voz; são boas canções.
Sobre a banda, é um trio composto por José Novo (bateria), Filipe Miranda (guitarra e voz) e João Coutada (baixo), figuras que se vão cruzando noutros projectos da casa Honeysound, como The Partisan Seed, BiarooZ ou Nikouala. Editado em Junho de 2009, o álbum contou como convidados com José Arantes (co-produção), Alcino Fonseca (voz) e Lisete Santos (voz).

Ouvir Interm.Ission no MySpace

capa de Same Old Fancy Show / 01-05
“Same Old Fancy Show / 01-05″ – Interm.Ission (Honeysound, 2009)

01 Old Man Winter
02 Make No Mistake on a Strange Way
03 In Your Eyes (song for Lee) / Television
04 The Eyes of a Doll / AstroFarmDebris
05 Star Circle (Cobra Night)
06 Motor Honey
07 Tendency For Sights
08 Angel N.21

género: alternativa
www.strangeways.pt.vu
intermission.blogs.sapo.pt
www.honeysound.com

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“Eles São os Smix Smox Smux” – Smix Smox Smux

Dezembro 19th, 2009 | versão papel versão papel

Eles são os Smix Smox Smux. É.
De facto, e só por serem assim, sinto que já haveria motivos para dar graças alguém. Nem é difícil imaginar, mesmo sem ver ou ouvir, o que se pode esperar de um grupo que tem por graça Smix Smox Smux. Não que seja possível determinar desde logo o tipo de música a que estes senhores se dedicam, nada disso, mas antes porque se torna imaginável perceber que o fazem com uma boa dose de humor, de gozo sério, assente numa boa disposição generalizada. Mas posto isto, há pelo menos uma pergunta que se impõe; quero dizer, a pergunta. Sim, são uns tipos engraçados, bem humorados e com umas letras certeiras, mas no fim, espremido o sumo, é coisa com carácter? Sim. Sem dúvida. Apetece mesmo dar um viva à ingenuidade rock dos Smix Smox Smux; um rock feito de gaivotas pelo meio, toques polifónicos e uma inesquecível Famel Zundapp na estrada; entre outras preciosidades. Tudo isto num rock e/ou punk sem desvios, assim mais ou menos, sem travão e sempre em frente. Adiante.
Resumindo, os Smix Smox Smux são mais um dos bem-vindos nomes dessa nova leva músicos nacionais que têm optado por se expressar em português, marcando posição por isso mesmo. Não só, mas também. Essencialmente, porque o fazem com sentido. A música, é um rock directo, bem gizado, com uma guitarra bem activa e uma secção rítmica a dizer firmemente ao que vem. A voz, essa, acompanha tudo o resto de uma forma descomprometida, não fugindo sequer a falsetes em jeito de caricatura. Não deixam dúvidas. Bebendo do rock nacional das últimas décadas, de um forma livre, os bracarenses Smix Smox Smux são uma lufada de ar fresco no actual panorama do rock nacional; menos estereotipada do que outras propostas semelhantes.
De resto e para quem ainda não sabe, o Smix toca baixo, o Smox toca guitarra e o Smux toca bateria. Juntos, são os Smix Smox Smux, autores de um interessante disco de estreia. Um disco onde cada tema é como uma surpresa renovada; divertida e eficaz. Viciante.

Ouvir Smix Smox Smux no MySpace
capa de Eles São os Smix Smox Smux
“Eles São os Smix Smox Smux” – Smix Smox Smux (Amor Fúria, 2009)

01 Preliminar
02 Uísqui
03 Cara de Pau
04 Toques Polifónicos
05 Animal Vegetal
06 Maçã
07 Roqueiro de Aviário
08 Malinha
09 Aquecimento Global
10 Famel Zundapp
11 Luz Luminosa
12 Gasolina
13 Anos 80

género: rock
www.myspace.com/amorfuria

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“Assobio” – Assobio

Dezembro 7th, 2009 | versão papel versão papel

Às vezes, fazer não custa, o difícil é fazer bem.
À surpresa do fim algo abrupto de uns luminosos Chuchurumel, César Prata respondeu vigorosamente este ano com uma nova aventura sonora: Assobio. E não é um assobio dado para o lado, muito pelo contrário, esta é uma assobiadela convicta, bem em frente. Se em termos estruturais, esta aventura não foge muito à anterior, já quando se olha mais fundo, descortinam-se neste novo projecto alguns passos em frente. Passos seguros.
A ideia central mantém-se. A esperança de fazer nascer do tradicional  uma nova realidade musical. Uma tradição renovada pelas possibilidades proporcionadas pela modernidade tecnológica – da programação; do processamento; da electrónica. Essencialmente, falamos do resultado do cruzamento da música tradicional portuguesa com outras linguagens musicais mais recentes. O resultado é claramente positivo, mantendo César Prata na liderança deste processo de renovação, que se quer natural. É natural. Depois, os passos em frente sentem-se a cada faixa desfrutada, desde logo, pela solidez sentida em cada tema. O tempo com Chuchurumel deu a César Prata o necessário tempo de amadurecimento que se sente neste Assobio. Por outro lado, o projecto Assobio foi levado por César Prata para outros territórios – não só geográficos; o tradicional castelhano; o medieval; a tradição oral. São os novos caminhos que se trilham no monte e na cidade.
O “Assobio” foi gravado entre Dezembro de 2008 e Março de 2009, sendo composto por 13 temas: cinco canções tradicionais da Beira Alta, duas da Beira Baixa, uma algarvia, uma canção tradicional de Salamanca, uma canção medieval, um instrumental original, uma oração alentejana e um outro original (letra de Américo Rodrigues e música de César Prata). Vanda Rodrigues é o assobio que tão bem se ouve. Os arranjos são todos de César Prata.
O resultado final é bastante equilibrado e sóbrio; resultado difícil quando a fusão de recursos tão distantes no tempo são as armas ao nosso dispor. Não é caso único, o projecto Megafone já o fizera com semelhante brilhantismo, em todo o caso, Assobio é arrojado, é interessante e acima de tudo, pode vir a ser importante. Muito importante.

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capa de Assobio
“Assobio” – Assobio (Teatro Municipal da Guarda, 2009)

01 D. Varão
02 Cantiga da ceifa
03 Lá em cima naquela serra
04 Já lá vai ao mar abaixo
05 Nossa Senhora do Leite
06 Danza del rey Don Alonso
07 Assobio
08 En Lixboa sobre lo mar
09 Oração para tirar o sol
10 Dorme dorme meu menino
11 Entrudo
12 Nórdica
13 Encomendação das almas

género: tradicional
aassobio.blogspot.com
www.tmg.com.pt

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”Guitarra 66″ – Tó Trips

Novembro 18th, 2009 | versão papel versão papel

Impressões. São impressões, meus amigos.
“Guitarra 66″ é um disco impressivo, um apelo às emoções, um disco marcado pelo que o exterior imprime em nós; todos os dias; quando calha. “Guitarra 66″ é a expressão dessas impressões; a expressão de uma viagem pelo mundo, outras vezes, de uma viagem apenas por Portugal. Sim, porque o mundo não é assim tão grande e muitas vezes,  Portugal está mesmo à espreita na próxima esquina. O disco chama-se “Guitarra 66″ e marca a estreia a solo de Tó Trips, figura dos fantásticos Dead Combo e com um passado feito em nomes como Amen Sacristi, Santa Maria Gasolina em Teu Ventre e Lulu Blind.
É um disco sem segredos; cru; tocado apenas com guitarra clássica – e espaçada percussão, “Guitarra 66” não deixa espaço para subterfúgios, apenas para íntimos silêncios, pautados por momentos de intermitente tensão ou  distensão sonoras. É um avanço corajoso por intrincadas combinações rítmicas, resolvidas superiormente por um dedilhar pouco óbvio. É um encanto. O que ali está é um punhado de sensações diferenciadas, sentidas à velocidade da paisagem; da terra calcorreada. É o tal disco terreno que Tó Trips diz ser “um disco romântico, mediterrânico e com raízes portuguesas. Um disco ibérico e virado para o Atlântico. Cruza viagens pelo deserto africano, evoca bairros latinos nos Estados Unidos, imagina mares do sul“. É a tal prova de amor; à terra; à vida; à música; mas essencialmente à sua mulher Raquel, a quem Tó Trips dedica este disco.
Não é apenas um disco de guitarra clássica, é essencialmente um disco retrato de paisagens, de paixões, de emoções e de uma certa forma de ser. O ser Tó Trips, por mais estranho que nos possa parecer. É a viagem que é preciso fazer. A viagem de uma vida.

Ouvir Tó Trips no MySpace

capa de Guitarra 66
“Guitarra 66″ – Tó Trips (Mbari, 2009)

01 Guitarra 66
02 Pinacoolata
03 Traffic
04 Spanish Letters
05 Rua da Inquietude
06 I Love Your Air
07 The Road to Aït Benhaddou
08 Old Times on the Balcon Jack
09 The Wind Blows
10 Ponzo
11 Esmoriz
12 Electric Marrakesh

género: guitarra
mbarimusica.blogspot.com

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”Um Fim-de-Semana no Pónei Dourado” – B Fachada

Novembro 13th, 2009 | versão papel versão papel

B Fachada é o seu nome; ”Um Fim-de-Semana no Pónei Dourado”, o disco:

“B Fachada é um multi-instrumentista virtuoso: do piano à guitarra, passando pela viola braguesa e pelo trompete vocal. Do soneto maldito ao cianeto alexandrino, passando pela grandiloquência transmontana e pela rusticidade jazzística de um scat: é multi-instrumentista virtuoso este B Fachada.” (Samuel Úria)

É. Depois, “são mais canções”. Foi com esta determinação que se fechou por aqui a última referência ao mais recente trabalho de B Fachada. A mesma forma despojada com que o autor encara a sua música. Despojado de efeitos mas nem por isso de criatividade. Depois dos momentos de comunhão de “Viola Braguesa” (FlorCaveira, Merzbau, 2008), em ”Um Fim-de-Semana no Pónei Dourado” a exploração é mais ampla, aberta, centrada quase sempre num ténue  baloiçar entre o eléctrico e o acústico; um discorrer por entre um filamento pop de popular, que brota das palavras ditas pelo cantautor, radicado na ideia da desconstrução de uma certa forma de ser pop, folk, rock ou outra coisa qualquer – será por acaso que encontramos um  “Zappa Português” no alinhamento? É esta espécie de moderada  e vagueante anarquia criativa, confronto entre uma coisa e o seu contrário, ou outra bem diferente, mas sempre com aquela ternura primaveril, que nos causa algum sobressalto interior, alguma inquietação; geralmente estimulante; sempre positiva. O ser tão português e ser tão diferente. As palavras não se escondem em pronúncias estrangeiras – muitas vezes más, antes se dizem em português – e do bom, com a vontade de dizerem algo, efectivamente. E dizem, por mais marcadas que sejam pela rotina dos dias. Mas dizem.
Para mais do que um fim-de-semana. Com ou sem pónei dourado. No fundo, é a música que importa. E esta tem personalidade.

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capa de Um Fim-de-Semana no Pónei Dourado
“Um Fim-de-Semana no Pónei Dourado” – B Fachada (FlorCaveira, 2009)

01 Zé!
02 O ciúme e a vergonha
03 Pelas ruas
04 Soraia
05 Zappa português
06 D. Filomena
07 Beijinhos
08 Habituais
09 Mimi 3
10 Conceição
11 Lá na Selva

género: pop
www.florcaveira.com
www.myspace.com/florcaveira

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“Cruz Vermelha Sobre Fundo Branco” – Os Golpes

Novembro 4th, 2009 | versão papel versão papel

“11 golpes certeiros, desferidos em plena marcha; imparável; implacável. É a marcha d’Os Golpes.” (1)

É uma marcha mais ou menos esperada neste nosso pequeno bairro. E nela, Os Golpes incorporam, desde logo e simbolicamente, a paixão pela palavra em português. A palavra cuidada. E não é inusitada toda a imagética que acompanha Os Golpes; mas também os sons e as vozes em clara vénia aos heróis do início da década de 80, como  Heróis do Mar, UHF ou mesmo Taxi. O desafio foi lançado.
Mas é também um desafio perigoso, correndo o risco de alguma presunção, parecer ou querer ser o início de uma marcha fulgurante, de estandarte em punho, nunca ignorando a linha ténue que os separa do passado. Não é a cópia barata das coisas de outros tempos, é antes a recriação tendo como fundo uma forma actual de estar na música portuguesa – ou reinvenção. Aqui, hoje, com uma envolvência sonora e produção melhoradas, não tivessem já corrido quase 30 anos. Com mais corpo, profundidade, este é o rock que não se envergonha nunca de ser pop; muito pelo contrário. Essa é uma das forças deste “Cruz Vermelha Sobre Fundo Branco”.  Uma força que o faz transbordar de frescura e energia, mas essencialmente de esperança. No presente; no futuro. Se “Cruz Vermelha Sobre Fundo Branco” é uma perfeita maravilha da música portuguesa? Se calhar não o é, mas nem por isso deixará de nos contentar sobremaneira, tal a forma como estas canções nos absorvem, qual doce iluminado pelo olhar de uma criança. Musicalmente certeiro, de arranjos competentes, as letras fogem com distinção à banalidade de alguma pop. Um disco interessante. Porque é feliz; porque diverte.
Manuel Fúria na voz e na guitarra eléctrica, Pedro da Rosa nas segundas vozes e guitarra eléctrica, o Luís nos coros e baixo e Nuno Moura também nos coros e na bateria, são os Golpes. A produção é de Jorge Cruz, assistida por Nuno Roque.

Ouvir Os Golpes no MySpace

capa de Cruz Vermelha Sobre Fundo Branco
“Cruz Vermelha Sobre Fundo Branco” – Os Golpes (Amor Fúria, 2009)

01 Cruz vermelha
02 O canto
03 Tarde livre, Parte I
04 A marcha dos golpes
05 O arraial
06 Tarde livre, Parte II
07 O silêncio
08 Embarcadiço
09 Fogo posto
10 Tarde livre, Parte III
11 Sobre fundo branco

género: rock
www.osgolpes.com
amorfuria.blogspot.com
pt.myspace.com/amorfuria

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”Like the Wolf” – a Jigsaw

Outubro 21st, 2009 | versão papel versão papel

Ancorado o barco, agora a história é outra e fala-nos de um certo fim da inocência. É o novo álbum dos a Jigsaw.
E na verdade, não é nenhuma surpresa. Não no todo. A qualidade é a mesma e a surpresa, se a há, está na capacidade de fazer ainda melhor. E o fazer ainda melhor, diz respeito ao que o grupo de Coimbra já fez em 2007 com o belíssimo “Letters From The Boatman” (Rewind Music). E fê-lo, tornando este “Like the Wolf” um digno sucessor do anterior; o perfeito sucessor.
Mas melhor ainda, como? Com naturalidade. Pelo excelente trabalho de composição – música e letra; pela coesão instrumental enquanto grupo, cada vez mais uno; pela produção, capaz de transformar “Like the Wolf” numa peça completa, momento de absoluto prazer. Sem perder a veia conceptual, uma orientação clássica dos a Jigsaw, é clara a propensão da banda de João Rui, Jorri e Susana Ribeiro por uma retumbante paixão folk, country e blues. Uma paixão americana. Sem esforço, a alma dos a Jigsaw vive no outro lado do Atlântico, tal como o sangue que lhes corre nas veias, sendo este ”Like the Wolf” a prova de uma universalidade da arte musical. As 12 faixas de ”Like the Wolf” correm sem dor, harmoniosas, por entre a voz carregada de João Rui; por entre cordas vibrantes; por entre os vários ritmos de Jorri; por entre a delicadeza do violino de Susana Ribeiro – passe a capacidade multi-instrumental da banda. Por entre um emaranhado de instrumentos. O disco corre. “Like the Wolf” é um disco de mão cheia, bem produzido e sem pontos fracos. É uma história com princípio, meio e fim, fruto de uma inspiração que só o amadurecimentos pode oferecer.
Um belo disco, condimentado ainda com as participações de Becky Lee (voz), Carlos Ramos (bateria), Gito (contrabaixo) e Miguel Lima (bateria).
Obrigatório.

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capa de Like the Wolf
”Like the Wolf” – a Jigsaw (Rewind, 2009)

01 Farmhouse
02 Red Pony
03 His Secret
04 Crashing Into The Harbour
05 Like The Wolf
06 Return To Me
07 My Blood
08 Idiot Smile
09 Leap Of Ignorance
10 Six Blind Days
11 The Trial
12 A Little Story

género: folk
www.ajigsawmusic.blogspot.com
www.rewind-music.net

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“Two Birds Blessing” – Old Jerusalem

Outubro 16th, 2009 | versão papel versão papel

Não são muitos. É quase um facto. Poucos terão sido os músicos nacionais, ou grupos, capazes de ter já marcado com tanta abundância e qualidade o século XXI. Parece-me um facto praticamente indesmentível. Com álbuns editados em 2003 (“April”, Bor Land), 2005 (“Twice the Humbling Sun”, Bor Land) e 2007 (“The Temple Bell”, Bor Land) – sem quere esquecer “Old & Alla” (Edição de Autor, 2001) e “Splitted” (Bor Land, 2006), em 2009 volta a ver reconhecida toda a arte de Francisco Silva, o homem por detrás do projecto Old Jerusalem. E não é só uma arte, é também um mundo. Um mundo que o artista abre com sinceridade aos outros a cada dois anos. Os outros, nós, irradiamos felicidade.
É verdade que a obra de Old Jerusalem não é marcada por grande diversidade ou evoluções de âmbito estético; e “Two Birds Blessing” também não o é. E também já se percebeu que a trajectória de crescimento de Old Jerusalem pouco ou nada tem a ver com uma reinvenção criativa constante. O crescimento é de espírito e caminha numa  única direcção capaz de fazer as mesmas ou coisas parecidas de uma forma cada vez mais consistente; reconhecidamente melhor. E disso também não dúvidas: “Two Birds Blessing” é um disco de Old Jerusalem.
No fundo ou à superfície, são canções. São apenas canções. Cada vez mais apuradas, mas são canções. Pedaços de som e palavras soprados com uma delicadeza desarmante. Com toda a calma deste mundo, são canções que vivem sem presaa de morrer; sem pressa de ver o último acorde ditar o seu fim. Mas no fim, morrem sempre felizes. Ao quarto álbum, a música de Old Jerusalem está mais aberta, mais leve e disponível, nunca perdendo aquele seu intimismo tão característico. Nunca perdendo a vitalidade, aquela simplicidade reconfortante capaz de nos embalar e convencer que afinal vale a pena. Vale a pena parar um pouco e ficar ali, parado; a ouvir; a sentir; a fruir. Há algo de quase mágico nesta forma de respirar das canções de Old Jerusalem. Nesta forma de manusear sentimentos. Depois, ouvimos tudo ser sussurrado com aquela voz repleta de formas, capaz de nos convencer ao primeiro suspiro. E convence.
Mas para que tudo faça mais sentido, “Two Birds Blessing” traz consigo alguns convidados: Pedro Marques no piano e sintetizador, Pedro Oliveira na bateria e percussão, Márcio Carvalho no baixo, Jorge Loura na guitarra, Susana Magalhães na viola, Gabriela Magalhães no violino, Alexandrina Faria na flauta e José Abreu na trompa. Paulo Miranda voltou a ser o responsável pela gravação e produção do disco. E ainda bem.
E porque não é segredo para ninguém – pelo menos para os mais atentos, qual Midas dos tempos modernos, Francisco Silva é sem duvida, na actualidade – e no novo século, um dos nossos mais iluminados letristas e compositores. “Two Birds Blessing” é apenas mais um exemplo. Apenas mais um.

Ouvir Old Jerusalem no MySpace

capa de Two Birds Blessing
“Two Birds Blessing” – Old Jerusalem (Rastilho Records, 2009)

01 Arduinna and the science boy
02 The gene genie
03 Seventh day, dawn
04 Ominous prayer
05 Pale mirror of you
06 Restless choose leaving
07 The news bit
08 The soviet face
09 The guilt albatross
10 Two birds blessing
11 You, you & me, me

género: folk rock
www.rastilhorecords.com

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”Infernum Liberus EST” – Darkside Of Innocence

Outubro 7th, 2009 | versão papel versão papel

São 11 temas em cinco actos. Assim se conta a primeira parte da demoníaca história dos Darkside Of Innocence, resultado dos últimos quatro anos de vida da banda sintrense. É da escuridão profunda que emergem os Darkside Of Innocence, perdidos num misticismo antepassado, numa negritude marcada, em parte, pela multifacetada guturalidade da voz masculina de Pedro Remiz. Mais do que a voz feminina, aqui e ali a necessitar de uma maior equilíbrio.
Disco de estreia do grupo de Pedro Remiz (voz), André Reis (guitarra), Pedro Bandeira (bateria), Sara Henriques (voz), Paulo Roque (guitarra) e João Arcanjo (baixo), ”Infernum Liberus EST” surpreende pela sua essência e pela magnitude da proposta, vista na sua globalidade. Não sendo de todo representativo do som actual da banda, o facto é que o black metal melódico de feições góticas apresentado neste disco, deve ser visto como um enorme cartão de visita dos Darkside Of Innocence – o disco existe apenas no formato digital, distribuído gratuitamente. Sem ser particularmente inovador, no seu todo, fica no entanto o rigor estético, a capacidade em potência e algumas peças já verdadeiramente emocionantes, como os casos de “An Impending Commence For Decay”, “… Of A Cursed Dawn Eclipsed”, “A Howling Hymn For Aneon’s Awakening” ou a pungente “In Nomine Dementia” – esta em português. Tudo livre e gratuito.
Disco de fortes atmosferas, melodicamente sombrio, ”Infernum Liberus EST” é um disco preenchido por superiores momentos; momentos de sinfónica beleza; momentos de infinita tristeza. Excelente estreia.

Download Grátis

capa de Infernum Liberus EST
”Infernum Liberus EST” – Darkside Of Innocence (Edição de Autor, 2009)

01 Act I – Inferno
02 Act I.I – Angel Of Sin
03 Act I.II – The Eve To A Colder Epoch
04 Act II – Once Upon Havoc And Despair
05 Act II.I – An Impending Commence For Decay
06 Act II.II – To Her Spawn In Full Submission
07 Act III – The Chosen Path Led Forth Devastation
08 Act III.I – … Of A Cursed Dawn Eclipsed
09 Act IV – To Bid Valia A Last Farewell
10 Act IV.I – A Howling Hymn For Aneon’s Awakening
11 Act V.I – In Nomine Dementia
12 Act V.II – Bloody Mistress

género: black metal
www.myspace.com/darksideofinnocence

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“Do What You Will” – Headcleaners

Outubro 4th, 2009 | versão papel versão papel

A música; as palavras; as vozes: “Do What You Will”.
Na verdade, há muito que o coração dos Headcleaners trazia em mente o projecto que só este ano ganhou expressão física. Naturalmente, falo-vos do álbum “Do What You Will”, o disco que Alexandre Simões e André Pires editaram no passado mês de Maio.
Perfiladas a música, as palavras e as vozes, sobra um transversal bom gosto na abordagem escolhida na generalidade do disco. Levemente electrónico, levemente acústico, o som dos Headcleaners expressa-se numa suavidade  quase encantada, matéria prima de atmosferas envolventes, marcadas pelo encontro feliz e harmonioso das variadas vozes do disco e a música. Não há que enganar, se não é pela singularidade da proposta, é pelos pormenores de bom gosto que abundam em “Do What You Will”, imagem de um trabalho de composição e interpretação muito interessante. Aos poemas de Emily Dickinson, Vânia Gala, Yeats, Fernando Pessoa, Jack Kerouac e Ribeiro Couto, a dupla juntou as vozes de Marta Hugon, Filipe Melo, Inês Trigo de Sousa, Chiara Picotto, Manuel Wiborg, Ana Lúcia Palminha e Kalaf.
Uma pop refinada de sonoridade lounge a merecer audição atenta.

Ouvir Headcleaners no MySpace

capa de Do What You Wil
“Do What You Will” – Headcleaners (Edição de Autor, 2009)

01 Handsome Skies
02 Fraud
03 Before the World Was Made
04 Orla
05 The Brain is Wider Than the Sky
06 Essence
07 Sintra
08 Looking for a Thrill

género: pop

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“Álbum Negro” – Bizarra Locomotiva

Setembro 22nd, 2009 | versão papel versão papel

Será possível ser trucidado, violentamente,  e regressar ao mundo dos vivos em cerca de 58 minutos? Obviamente que sim!
A resposta não é difícil e encontra-se no último álbum dos Bizarra Locomotiva, o histórico colectivo de Rui Sidónio (voz), Miguel Fonseca (guitarras), BJ (maquinaria) e Rui Berton (bateria). Não que esta locomotiva tenha surgido com uma força  motora desconhecida, nada disso, mas antes porque se mantém, após tantos anos de luta, com a mesma energia – em alguns casos com mais ainda; isto é, com a mesma brutalidade. Se é verdade que parte desta brutalidade se centra na voz atemorizadora de Rui Sidónio, não é menos verdade que a música desta Bizarra Locomotiva continua sufocante, sôfrega no caminho que palmilha. Um sufoco que se mantém  faixa após faixa, sem nunca perder gás, sem nunca nos deixar baixar a guarda. É o peso da maquinaria. Angustiante, este “Álbum Negro” simboliza a eterna e sombria claustrofobia dos Bizarra Locomotiva; uma negritude arrepiante que percorre de um estranho prazer as 14 faixas do disco. Quase sempre de uma densidade furiosa, “Álbum Negro” acentua a posição de charneira dos Bizarra Locomotiva no panorama da electrónica industrial nacional.  Sem esforço. Na verdade, 15 anos passados e ao sexto álbum, a violência do som dos Bizarra Locomotiva continua intacta, ao mesmo tempo que as capacidades agitadoras de Rui Sidónio se mantém ao mais alto nível. Vigoroso e cativante, o single “Anjo exilado” é apenas um pequeno exemplo desse estado de alma – com a participação especial de Fernando Ribeiro (Moonspell).
O ódio e a dor estão de volta, com uns Bizarra Locomotiva iguais a si mesmos. Pujantes.

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capa de Álbum Negro
“Álbum Negro” – Bizarra Locomotiva (Raging Planet, 2009)

01 Nostromo
02 Êxtases doirados
03 Remorso
04 O Anjo exilado
05 Ergástulo
06 Sufoco de vénus
07 A procissão dos édipos
08 Engodo
09 Láudano 3
10 Outono
11 Egodescentralizado
12 Angústia
13 O grito
14 Prótese

género: industrial
www.bizarralocomotiva.com
www.ragingplanet.web.pt

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“The Glockenwise” – The Glockenwise

Setembro 14th, 2009 | versão papel versão papel

Haverá forma de elevar moral de um povo, farto de políticos de segunda, em apenas 15 minutos? Pouco mais do que 15 minutos? Claro que há!
Esta chama-se “The Glockenwise” e é apenas uma possibilidade – acreditando piamente que existem outras. É este o título do último EP da banda com o mesmo nome; um EP de seis faixas apenas a marcar a estreia deste quarteto barcelense. Numa fúria desenfreada, os jovens Cristiano Veloso na bateria, Rafael Ferreira na guitarra, Rui Fiusa no baixo e Nuno Rodrigues na voz, movem-se com grande genica pelos campos mais enérgicos do garage rock. A saudável atitude punk destes rapazes lembra-nos que ainda há esperança para o rock; para quem vive a música de uma forma descomprometida e sincera; para quem leva a vida a sorrir. Ainda há esperança. É verdade que a originalidade não é muita mas isso também não interessa nada aqui. A energia e o estrondo constante que trespassa o disco, pulveriza totalmente pormenores importantes numa outra dimensão de análise. Aqui, a cena é mesmo rockar e curtir com desmesura. Curto e grosso como convém, nestes tempos de crise.
Entretanto, lá se foram os 15 minutos; assim, num vaipe…gostoso!

Ouvir The Glockenwise no MySpace

capa de The Glockenwise
“The Glockenwise” – The Glockenwise (Lovers & Lollypops, 2009)

01 Let’s wait for the worst
02 The past of an orgasm addict
03 Back alley
04 Ggggggo song
05 Highway rush
06 Explosive generation

género: garage rock
www.myspace.com/loversandlollypops
www.loversandlollypops.com

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“Sentimento Sofrimento” – Os 3 Marias

Setembro 8th, 2009 | versão papel versão papel

Este é o esperado…não; é o esperadíssimo álbum de estreia de Os 3 Marias, esse quase original trio composto pelos artistas Epilady Di (voz), Melo e Castro (viola baixo e outras e coros) e Marco Gina (guitarra e coros). Sobre o resto, que é o que verdadeiramente interessa, não há grandes surpresas, pois a maqueta de 2008 já nos havia deixado praticamente de rastos; qualquer coisa perto disso. “Electronicamente” e “Sentimental”, temas desse registo  recuperados para este álbum, foram os responsáveis pelo abanão quase nuclear, quase sentido em 2008. Foi mesmo por um triz. “Sentimento Sofrimento” é a ressaca que se lhe seguiu, sendo tudo e não sendo nada quase ao mesmo tempo; e olhem que não é fácil. A música de Os 3 Marias é como um cargueiro em alto-mar em noite de trovoada. Tudo gira e gira num rebuliço daqueles. Não sendo fácil caracterizá-los, a si e ao seu rock, a banda defende-se, afirmando-se possuidores de um estilo muito próprio, o electro-analógico pornosentimental. Bem, a verdade é que o som destes Os 3 Marias é mais do que isso; é pura arte, é um encontro arrebatador entre o som e a palavra, entre a música e a poesia – mais ou menos. “Sentimento Sofrimento” é amor em movimento; com mais ou menos amor. É música para os nossos ouvidos. De “O Arrumador” a “Pamela Al Jazira”, a única certeza que temos é de que se qualquer coisa nesta vida ainda faz algum sentido, Os 3 Marias fazem muito mais. Com a vantagem de o fazerem com piada.
Se a pop-rock ainda tem algum futuro, talvez este esteja n’Os 3 Marias; quem sabe?

Ouvir Os 3 Marias no MySpace

capa de Sentimento Sofrimento
“Sentimento Sofrimento” – Os 3 Marias (Tinóni Discos Musicais, 2009)

01 O Arrumador
02 Electronicamente
03 Bera na Cidade
04 Sentimental
05 Laura
06 Balada do Spread
07 Fundo do Mar
08 Patroa Para Mim
09 Pamela Al Jazira

género: rock

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“Jamboree Park At The Milky Way” – The Weatherman

Setembro 4th, 2009 | versão papel versão papel

Não são raras as vezes em que, depois de apresentado um merecedor projecto português a alguém sem hábitos de audição da música que se faz por cá, salta uma expressão que tem tanto de sintomática como de irritante:
- Nem parece português!
Infelizmente, a ignorância e alguma predominância de um sentimento de pequenez torna esta expressão muito mais comum do que possamos pensar. Adiante.
Isto tudo, para dizer que “Jamboree Park At The Milky Way” e The Weatherman se encaixariam sem espinhas neste perfil de projecto. Para além do óbvio, de não parecer português por ser cantado em inglês – aqui percebe-se a dúvida, a verdade é que “Jamboree Park At The Milky Way” é desde que começa até que acaba, um belíssimo disco. Não encantará toda a gente, conhecedores ou não, mas uma coisa devemos reconhecer; o trabalho de composição foi preparado ao milímetro, nunca lhe ficando atrás todo o trabalho de interpretação. E quando assim é, as probabilidades de obtermos um grande disco aumentam exponencialmente. Ainda mais, quando à musica se junta um cuidado trabalho de vozes; as que dizem palavras feitas “sentimentos à flor da pele“, como The Weatherman lhes chama na entrevista que concedeu a este blogue. O quase épico “Gods Reply” e o infantil “Candy Clem” são disso um óptimo exemplo. Da terra para o céu.
Se“Cruisin’ Alaska” (Monocromática, 2006) havia sido uma verdadeira bomba no espectro pop nacional, bem colado a óbvias influências de Beach Boys e Beatles, já com “Jamboree Park At The Milky Way” é dado um passo firme no sentido da diferenciação, de alguma independência estética. Sem nunca perder o aroma do rock das décadas de 60 e 70 – do pop ao psicadélico, que se mantém bem vivo desde o anterior disco – com as mesmas influências, há no novo uma outra frescura instrumental, uma outra complexidade nos arranjos; mas o mesmo bom gosto. Ao contrário de “Cruisin’ Alaska”, um disco mais aninhado sobre si mesmo, fruto de alguma solidão,  “Jamboree Park At The Milky Way” é um disco mais solto, um disco de luz, aberto às pessoas e ao mundo. Na verdade, 0 tempo passou e Alexandre Monteiro abriu-se também ele a um mundo exterior cheio novos de estímulos. Com isto, obtivemos um disco pop de grande rigor estético. Um disco pop de aromas vários; o cançoneteiro idealizado por Alexandre Monteiro.
E sim; é português!

Ouvir The Weatherman no MySpace

capa de Jamboree Park At The Milky Way
“Jamboree Park At The Milky Way” – The Weatherman (Sublime Impulse, 2009)

01 Far-off places
02 Chloe´s hair
03 Follow you everywhere
04 Long tongue girl
05 Floating downwards
06 Summer dream
07 Too much to mention
08 God´s reply
09 Candy clem
10 Starship girls
11 We were given space
12 La fontaine

género: pop

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“Nothing Really Ends” – Loops

Agosto 31st, 2009 | versão papel versão papel

Os Loops são um “grupo composto por Carlos Marques (voz, guitarra), Leonel Miranda (baixo) e Filipe Alvarenga (bateria). Os Loops cultivam um tipo de som shoegaze ao qual chamam de ‘monocromático’, uma fusão dentro do universo alternativo, com composições melódicas, imaginativas e envolventes” (1). A forma como nos são apresentados no sítio da Honeysound serve perfeitamente para caracterizar o álbum de estreia destes barcelenses. E isto, no que toca especialmente à grande amplitude utilizada pelo trio na exploração de todas as possibilidades do rock alternativo, daí resultando, efectivamente, um disco envolvente; pouco directo mas afectuosamente envolvente. É também um pouco a coragem de que fala Filipe Miranda, quando afirma que uma das duas belas características dos Loops é “a imaginação, que é estrutural, relaxada, corajosa e deixada à solta em toda a progressão dos temas” (2). Mas fala-se também da coragem de traçar uma linha de orientação e segui-la à risca, sem receios da avidez do mainstream. “Nothing Really Ends” é um disco rígido nos seus propósitos, estruturalmente coerente e esteticamente consistente, nunca perdendo aquela brandura na  audição.  No registo, Nikouala (José Arantes, Filipe Miranda), Lisete Santos (voz) e Nuno Fernandes (guitarra) deram também a sua contribuição.
Sem facilitismos na composição e depois do EP “No Comments” (Honeysound, 2006),“Nothing Really Ends” é o passo seguro que se esperava dos barcelenses Loops. Uma edição da Honeysound.

Ouvir no MySpace

capa de Nothing Really Ends
“Nothing Really Ends” – Loops (Honeysound, 2009)

01 Intro – all my memories
02 True love
03 Marionette’s empire
04 Nobody is like you
05 Time goes by
06 Loneliness pleasure
07 Sing la la la la
08 Leonel song
09 Why does it have to be so sad?
10 Nothing really ends

género: rock
www.honeysound.com

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