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D’Alva em “#batequebate”, faixa a faixa

Rui DinisRui Dinis

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É o “#batequebate” (NOS Discos, 2014) dos D’ΛLVΛ, novo projecto de Alex D’Alva Teixeira e Ben Monteiro. É o “#batequebate” da fresca e nova pop lusitana, aqui esmiuçada faixa a faixa:

Frescobol
A canção que definitivamente firmou a identidade de D’Alva quando a “descobrimos”. Canção que serviu como fecho do disco (pensámos na altura) mas que no fundo veio abrir uma porta para outras tantas que agora integram #batequebate. Foi com esta canção leve, ritmada e certeiramente pop, que percebemos que tínhamos qualquer coisa em mãos. Quando a acabámos ficámos com a sensação que tínhamos feito qualquer coisa de inédito, algo especial. Sendo que é quase uma colagem de clichés 80’s que percebemos que não tínhamos como não ceder aos mesmos, desde os synths, aos sons de bateria, ao solo kitch de saxofone e ao esquecido “fade out”, sinto que tem, apesar de tudo, um toque bastante actual, que ajuda a cimentar ainda mais a sua personalidade distinta.

Não estou a competir
A versão original desta canção que saiu numa mixtape editada pelo Alex mesmo antes do seu EP, “Não é um projecto”, era demasiadamente “juvenil”, mas ao mesmo tempo colava-se no ouvido e recusava-se a ir embora. O sinal de que havia nela algo de especial era como os filhos dos nossos amigos invariavelmente reagiam à mesma, dançando, cantando e pedindo por esta canção em repeat para assombro dos seus pais. Quando as crianças reagem a algo assim, é sinal que se está no bom caminho, afinal de contas eles recebem tudo sem filtros ou convenções. Foi apenas uma questão de encontrar uma roupagem que funcionasse para “miúdos e graúdos”, e lembrei-me do início do Rap, em que tudo girava em torno das “festas de bloco”  de forma extremamente inclusivista, em que o MC tinha o papel de entertainer, e o DJ começava a descobrir a música feita de retalhos, e ritmos contagiantes, e óbvio o B-Boy batalhava de forma pacífica através da dança. Essa é a génese desta canção, a inclusão, o resto é “produção e truques”.

L.L.S.
Esta canção nasceu de uma demo que eu tinha para a minha banda de outra altura e que o Alex era muito fã, e encorajou-me a reciclá-la para D’Alva. Uma experimentação de como o Rock pode funcionar em cima de um ritmo “baile funk” brasileiro, com uma pitada de 80’s e vozes à Justin Timberlake por cima. O segundo verso tem a participação do Tiago pois, quando não havia letra para o segundo verso, cantávamos uma das suas canções e a cadência encaixava perfeitamente, e é também uma maneira de “throw people off” com uma participação para alguns meio que inesperada, e também de desequilibrar o açúcar do disco até aqui, com um pouco de “flow dormente” como o mesmo refere na letra. Não queríamos canções perfeitas e doces demais.

$egredo
Esta canção, como outras que o Alex trouxe em forma de demo, tinha uma identidade bastante diferente, e na sua essência era uma espécie de “samba pop” e no fundo acabou por ficar algo como um “samba pop 8bits”. É uma canção que foi posta de lado, mas que insistia em voltar, por isso foi questão de encontrar uma roupagem que pudesse funcionar com o resto do álbum. Depois de alguns dias a reflectir percebi que tinha de levar o tratamento 80’s total para funcionar, e funcionou. É também uma das canções que leva mais atenção ao ritmo, sendo uma mescla de 3 continentes diferentes (Europa, África e Brasil), e também uma canção que podia ser perfeita em forma mas que optámos por acrescentar-lhe alguma disrupção e não a “fechar”. Onde normalmente haveria um refrão, a canção meio que não acaba, enquanto escutamos a “tia Zu”, a mãe do Alex, a dissertar sobre uma actuação nossa na televisão.

Lugar Estranho
Esta é uma das nossas canções favoritas e talvez o auge da influência anos 80 neste disco. Uma canção em ritmo “shuffle”, tão típico dessa era, mas tão pouco explorado hoje. Melodicamente transporta-nos imediatamente para um outro “lugar”, e foi uma canção que precisámos de bastante cuidado com o “açúcar”. O compasso é 6/4 também pouco comum, e na tentativa de perceber até onde podemos esticar as convenções da canção Pop. Com a ajuda do Héber Marques (HMB) na letra e João Gomes nalguns teclados (Orelha Negra) que fizeram com que a canção fosse para um “lugar estranho” ou diferente de onde nós naturalmente a levaríamos, mas que completou na perfeição a mesma. O título e a temática derivam do blog de uma amiga nossa (A Beleza é um Lugar Estranho), e funciona meio que como homenagem, como que reflexão sobre o belo, assim como as relações e os contornos que adquirem hoje em dia.

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Aquele Momento
A canção mais “perigosa” para mim, pessoalmente, pois foi uma canção que fizemos mesmo antes de fechar e enviar o disco para a fábrica. Meio contagiados com a ideia de actuarmos com um coro de Gospel no Optimus Alive, e num momento em que decidimos fazer exactamente o que queríamos sem ligar a expectativas ou convenções ou qualquer influência exterior. Para ambos, fazia todo o sentido mas havia o (meu) receio de ser um pouco “fora” para quem a ouvisse, de tão prazerosa que é para nós. A canção mais animada do disco, ainda que aborde uma temática que está no seu oposto, e que é mais uma “canção retalho”, com samples de Spice Girls, a Ashanti, ao cantor Gospel Kirk Franklin. É a possível versão de um Gospel “à D’Alva”.

No caminho leva mais brincadeiras no que a ritmo diz respeito, talvez para equilibrar. Se acreditasse em “guilty pleasures”, esta canção era isso mesmo, um verdadeiro antidepressivo sonoro, que escutámos diariamente quase que religiosamente durante uns 2 meses depois de a terminarmos.

Barulho 1
A festa continua mas num registo mais abrasivo. Não podíamos deixar o rock e as guitarras de fora, e esta canção combina esses dois mundos, a festa e o rock de forma bastante particular, ou como já nos foi dito, um pouco como os Beasties Boys. É a canção que faz um dos pontos altos das nossas actuações ao vivo, e onde o perigo aparece definitivamente no disco. As guitarras são mal tocadas de propósito, há vozes mal “cantadas” de propósito, há baterias com sons mal resolvidos “de propósito”.

Barulho 2
Originalmente era para ser apenas um poslúdio da canção anterior, e a sua génese apareceu quase por acaso em ensaio. Pensámos em mantê-la instrumental, mas decidimos que precisava de um(a) rapper. Pensámos nas escolhas óbvias mas imediatamente apontámos para a escolha menos óbvia (um pouco como com o Tiago) e a Capicua foi unânime. Desafiámo-la, e confessou não ser aquele o tipo de registo que estava habituada a fazer, mas resolveu mais que bem a canção, tão bem que talvez pelo entusiasmo confessou-nos “acrescentei um segundo verso e alterei a estrutura, espero que não se importem”. Não só não nos importámos como aconteceu exactamente o que queríamos, a Capicua tomou a canção como dela, e devolveu-a como algo novo. Não podíamos estar mais satisfeitos com o resultado e por ter a nossa rapper favorita no nosso disco.

Só porque sim
A primeira canção mais “calma” e intimista do disco, por oposição à canção que a precede. Começa apenas com vozes e cresce com synth’s e uma bateria “larger than life”, passando por momentos assumidamente Kanye West. Uma canção não sobre desamor como muita gente pensa, mas sobre aceitação e validação por parte de outros. Uma canção que quase não viu a luz do dia, mas que felizmente encontrou o seu espaço.

Homologação
Que mais haverá a dizer sobre esta canção? É a canção que escolhemos para dar a conhecer D’Alva ao mundo, e uma canção difícil de categorizar. Há quem lhe chame balada, há quem lhe chame dançável, mas a nível de estilo fica difícil de a categorizar ou encaixar, mas creio que isso é uma vitória já. O Alex queria uma canção com pouca letra, em que o refrão fosse sem letra, eu acrescentei um registo mais próximo do Kuduro se assim se pode dizer, a uma canção musicalmente etérea, e podia ter inúmeras roupagens diferentes, mas este pareceu-me ser o rumo a seguir por ser o mais improvável. Resultou! Foi cantada à primeira e é uma das nossas favoritas de tocar ao vivo.

Primavera
Uma canção bastante antiga do Alex, que na sua versão original era incrivelmente mais acelerada, e totalmente “Block Party”. Sempre acreditei nesta canção mas sempre insisti que teria mais força se fosse mais lenta, e delicada. Como não acreditamos em fazer as coisas pela via mais directa, experimentei repensar a “balada” esteticamente, e o resultado foi este. Uma canção extremamente delicada na forma, na estética e na interpretação. Samples de Destiny Chid’s, Ellie Goulding e a banda de Metalcore Underoath compõem esta canção que ritmicamente levou bastante tempo a ser “encontrada” e que quase quase podia ser uma Kizomba. [OUVIR | DESCARREGAR]

Rui Dinis
Author

Rui Dinis é um pai 'alentejano' nascido em Lisboa no ano de 1970, dedicado intermitentemente desde Janeiro de 2004 à divulgação da música e dos músicos portugueses.

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