A trompa é um blogue publicado por Rui Dinis desde o início de Janeiro de 2004. É um blogue dedicado à música e aos músicos portugueses dos séculos XX e XXI. Não há limitações quanto a nomes, géneros ou temas, os únicos critérios prendem-se apenas com o gosto e/ou a vontade do seu único autor. Eu.
O seu autor, esse, tantas vezes de auto-apelidado maestro, é um alentejano nascido em Lisboa no ano de 1970.
Em Junho…
…a editora nortenha Meifumado lançava a sua primeira compilação, “5 Anos, 13 Merdas”; duas décadas depois, os Taxi voltavama aos discos; os Katahrsis, banda de Oeiras, venciam a edição de 2009 do Festival Rockastru’s; a revista Loud! chegava ao número 100; Rodrigo Leão (com Cinema Ensemble) lançava o seu novo álbum, “A Mãe” (SonyBMG); era lançada a terceira edição dos “Novos Talentos FNAC 2009“;passavam 25 anos sobre o desaparecimento de António Variações; a netlabel Monster Jinx abria portas com “Monstro Robot”;
É editado amanhã o álbum de estreia do projecto SEDA:
“Miguel Ângelo Majer e Ricardo Santos, produtores e criadores dos Donna Maria, propõem uma nova viagem à música portuguesa. Desta vez elegeram os loucos anos 80 como tema inspirador. A este novo projecto deram o nome de SEDA.
Radio Macau, Táxi, Sétima Legião, Salada de Frutas, Radar Kadafi ou o maior responsável deste movimento, Rui Veloso, entre outros, fazem parte do alinhamento deste disco de versões.
Um facto, uma acção, um livro, uma pessoa ou uma música podem ter várias leituras ou releituras e é exactamente esse o propósito máximo deste novo trabalho. Um olhar de um novo ângulo sobre algo que, antes de mais, é alvo de admiração.” (1)
Alinhamento:
01 Irreal social – Ban
02 40 graus à sombra – Radar Kadafi
03 Amanhã é sempre longe demais – Rádio Macau
04 Cairo – Taxi
05 Sete mares – Sétima Legião
06 Chuva dissolvente – Xutos & Pontapés
07 A rapariguinha do Shopping – Rui Veloso
08 O corpo é que paga – António Variações
09 Robot – Salada de Frutas
10 Foram cardos foram prosas – Manuel Moura Guedes
11 Deixa-me rir – Jorge Palma
Os Seda são formados por Gabriela Barros (voz), Miguel Majer (bateria, percussão e voz) e Ricardo Santos (sintetizadores e voz).
Hoje. Passados 25 anos sobre o desaparecimento de António Variações, aqui se presta mais uma singela homenagem a uma das figuras mais marcantes da pop nacional das últimas décadas. Aqui vos deixo o documentário “A Vida de António Variações” em 6 partes.
Há um ano atrás comemorava por aqui um grande dia; um luminoso dia; um dia cheio de vida. Falava numa vida cheia de música. Exactamente um ano depois, confirma-se a luz, a vida e a música. Para adormecer, para comer ou simplesmente para brincar, a música foi fazendo parte do dia-a-dia dessa nova vida. Feitas as contas, de cabeça, aqui fica o estranho top 5 de um primeiro ano hoje terminado. Um ano de uma vida espantosamente diferente:
01 “Canção ao Lado” – Deolinda – o mais ouvido, de longe…
02 “Obra Infantil Completa de José Barata Moura” – José Barata Moura – incontornável, principalmente na hora de comer e brincar.
03 “O Melhor de António Variações” – António Variações – muito rodou – e roda; também para dormir.
04 “Canções de Embalar” – Vários Artistas – o mais rodado nos primeiros meses.
05 “Melech Mechaya” – Melech Mechaya – estranhamente para embalar.
Não perguntem porquê; foi assim. E por hoje chega.
::Tema: “Sempre Ausente” – António Variações (“Anjo da Guarda”, EMI, 1983; Reed. iPlay, 2008)
::Tempo: 1983
::Espaço: Lisboa
::Expressão:
É incrível como a cada regresso à obra de António Variações, mais convencidos ficamos da sua centralidade para a história da pop nacional; passado, presente e futuro. Foi assim, enquanto apresentava o melhor deste senhor ao mais jovem inquilino aqui da orquestra – sim, também dá para embalar. Como grande parte da sua obra, também este belíssimo “Sempre Ausente” é marcado por um forte teor autobiográfico:
Diz-me que solidão é essa
Que te põe a falar sozinho
Diz-me que conversa
Estás a ter contigo
Diz-me que desprezo é esse
Que não olhas para quem quer que seja
Ou pensas que não existes
Ninguém que te veja
Que viagem é essa
Que te diriges em todos os sentidos
Andas em busca dos sonhos perdidos
Lá vai o maluco
Lá vai o demente
Lá vai ele a passar
Assim te chama
Toda essa gente
Mas tu estás sempre ausente
Não te conseguem alcançar
Mas eu estou sempre ausente
Não me conseguem alcançar
Diz-me que loucura é essa
Que te veste de fantasia
Diz-me que te liberta
Que vida vazia
Diz-me que distância é essa
Que levas no teu olhar
Que ânsia e que pressa
Que queres alcançar
Que viagem é essa
Que te diriges em todos os sentidos
Andas em busca dos sonhos perdidos
“Vem que o amor Nem é o tempo Que o faz Vem que o amor É o momento Em que eu me dou Em que te dás” – (“Canção de Engate”)
“O meu gosto é o melhor“, canta Variações em “Deolinda de Jesus”, um tema dedicado à mãe; não sei se é o melhor, mas que é diferente , é. Desconcertante. Podia ser outro o adjectivo, mas para o caso, é este o que primeiramente se me coloca cada vez que vejo, cada vez que ouço parte ou o todo do artista ou da obra deste barbeiro que a 3 de Dezembro de 1944 nasceu no Lugar de Pilar, em Fiscal, freguesia da minhota terra de Amares. Naturalmente, em “Dar & Receber”, disco editado no ano da morte do músico, Variações não inventa – igual a si próprio. Fascinante – cada vez mais. Não é só a imagem, é também o som, é a figura, é todo um produto que mais tarde ou mais cedo acabou por se impor – por si; António Joaquim Rodrigues Ribeiro, ele mesmo. Desconcertante. Entre o futurista – até visionário – e o kitsch, António Variações está, finalmente, onde deve estar; no local onde estão as figuras mais importantes da história da música portuguesa do século XX – é de história que falamos. Com influências declaradas do fado de Amália, “Dar & Receber” é também ele – como se adivinha – um disco único. Duvido que haja outro artista – sério – que consiga aninhar num disco só, influências do fado, do pop, do folclore, da new wave, do rock, eu sei lá, enfim, tudo numa certa forma de fazer arte – tão estranha e arrojada quão fascinante. “Dar & Receber” é assim…assim, dele e só dele. Também nosso. Quanto ao resto, os Heróis do Mar deram uma ajuda.
“Dar e Receber” – António Variações (EMI – Valentim de Carvalho, 1984)
01 Perdi a Memória 02 Canção de Engate 03 Canção 04 Dar e Receber 05 Quem Feio Ama… 06 …Que Pena Seres Vigarista 07 Olhei P’ra Trás 08 Erva Daninha Alastrar 09 Deolinda de Jesus