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Com~Tradição e “Quando o Tempo se Quer Pousar”, faixa a faixa

Por em 20 Mai 2015

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Chama-se “Quando o Tempo se Quer Pousar” e é o novo disco dos Com~Tradição. Este é o faixa a faixa do disco, escrito por Rui Salgado.

1. Dia a dia – Uma canção que reflete o espírito do álbum, quer em termos musicais quer na letra tentamos transmitir uma forma de viver o tempo com Tempo. Com a possibilidade das coisas profundas poderem manifestar-se.

Musicalmente o Sébastien faz um acompanhamento com o arco do contrabaixo que reforça essa ideia de ausência de tempo

2. Pele de leão – É uma canção que parte duma metáfora com o orgulho. O personagem tenta despir a sua pele de leão e no fundo tenta libertar-se do seu orgulho para poder avançar, dar um passo, virar a página. Neste tema o Sebastien tem uma abordagem muito coerente. Apesar de não ter as raízes portuguesas, começa muito dócil e desenvolve o violino para uma intensidade que está muito em harmonia com a voz da Nicole.

3. Vela acesa – Esta canção fala de um vento que chega de madrugada e, em vez de apagar uma vela(está em causa uma pessoa, claro…) leva a sua chama para outro lugar. Pretende desmistificar esse momento que tememos…o fim. E o coro que faço com a Nicole pretende soar como esse vento. Cheio de força e de esperança numa continuidade (além matéria).

5. O sol – Depois de um inverno muito sombrio…como a maior parte dos invernos belgas, passei 15 dias em Abril no Porto. Esse contacto com a luz portuguesa fez-me escrever esta pequena história de amor onde ambos(é cantada em duo) reconhecem que o tempo para ouvir o outro não tem sido muito ultimamente. Mas prometem uma mudança…ajudados pelo sol.

É uma canção onde o ritmo e a atmosfera são muito chegados à Bossa Nova.

6. Portas Fechadas – A temática é o fim de uma relação. Começa com um refrão em que o personagem diz claramente querer virar a página constatando toda a dificuldade e agressividade do final da relação. Mais à frente, num ritmo mais corrido e mais luminoso há uma referência ao inicio apaixonante e de plena aventura. É um retrato global das relações onde as pessoas se fecham uma na outra e as coisas acabam por degenerar, mesmo tendo sido mágicas e ligeiras no início

Musicalmente o Sebastien faz um contraponto da guitarra com o contrabaixo e a Nicole faz uma segunda voz distante que nos remete às memórias que o personagem conserva.

8. Ancoras do Tempo – Este arranjo mais produzido reveste uma canção que fala de gente que não quer que a vida passe. Essas pessoas deitam as ancoras do tempo ao mar e agarram-se à corda…para que o barco ou a vida não avance. O resultado acaba por ser, ficar-se tão preocupado em querer abrandar o natural decorrer da vida…que se esquece de saborear. Chega então o refrão que faz a apologia do “Soltar das ancoras do tempo..não vivemos ontem…nem no mês passado”

9. Curso o rio – A música mais calma do disco: A nossa balada. é muito minimalista para dar o maior espaço possível à voz da Nicole. É uma homenagem ao rio Douro. A Nicole passou a sua infância (2 meses de férias cada ano) em Peredo da Bemposta, a última Aldeia das margens do rio Douro antes de chegar a Espanha. A família da minha mãe é de Armamar – Régua; A do meu pai de Moncorvo perto de Foz Côa, eu nasci e vivi no Porto..como vê, as nossas histórias estão muito ligadas a este Rio. Uma canção que musicalmente nos leva a estes lugares guardando um lado abstrato na letra, para que cada um a entenda à sua maneira.

10. Mãos Atadas – Esta canção é uma transposição espicaço-temporal-musical da mensagem do Zeca Afonso. Tenta, em primeiro lugar, reproduzir o lado afro da musica dele, e por outro lado, atacar-se às ameaças da liberdade..como ele o fazia tão bem! Para mim o problema foi que…não tenho um inimigo que materializa toda a podridão dum sistema como havia na época. Um regime que estava na origem dos sofrimentos que as pessoas atravessavam. O Zeca disparava num sentido e eu não sei muito bem para onde disparar. O alvo acaba por ser a forma complicada como vivemos e o preço (em liberdade) que estamos dispostos a pagar. No fundo materializa o ditador de hoje na ambição.

O tema termina com esperança e diz que, se como eu, não sabes fazer revoluções..e não sabes para onde disparar, aposta a tua energia nos meninos de amanhã! Na nova consciência ou consciência nova!

11. Folclore das Raízes – Esta ode às Raízes baseia-se num ritmo brasileiro, o baião, que segundo consta, tem origens no Minho. Esta universalidade e a maneira com os elementos viajaram e foram apropriados por outras gentes e reinventados é muito interessante e sempre que posso aproveito. ou aproveito-me! O tema constrói-se numa linha de baixo feita na guitarra e contem umas dissonâncias que são frequentes na música folclórica. Um retrato das coisas belas do nosso país confundido com memórias de paisagens, de família: a mãe dança o Vira do Minho, o pai prova o vinho acabado de fazer, o avô que adormece o seu neto com uma cantilena em mirandês, os banhos no rio douro…enfim, o Folclore das Raízes são as forças motrizes do mais divino ser!

E o mais forte de tudo isto é que se nunca tivesse emigrado, acho não conseguiria dizer isto de uma forma sentida e com todo o coração.

Os 3 fados:

4. Ouça Lá ó Senhor Vinho – O repertório da Amália foi a primeira ligação entre mim (Rui Salgado) e a Nicole. Num restaurante em St Gilles tocamos durante dois anos estas canções e fomos dando os nossos contornos. Não tínhamos a pretensão de as interpretar com as convenções dos fadistas tradicionais. São lindas canções. A Nicole canta-as com a musicalidade transmontana, eu toco-as com a minha maneira de acompanhar canções…influenciada pela música brasileira, pela chanson française, pelo vira do minho…

O sr vinho pela sua temática criava sempre um momento especial nestas noites de música Portuguesa. O nosso arranjo com ingredientes “samba” trazia sempre uma ligeireza. O Sebastien juntou-lhe um violino que nos leva um pouco até Cabo Verde…

7. Gaivota – Esta canção está na génese da formação dos Com~Tradição. Quando em 2010 o director da escola onde eu e a Nicole lecionávamos nos propôs de nos conhecermos e tocarmos algo em Português. Claro…ele sabia que ambos adoramos música e somos Portugueses mas eu e a Nicole não nos conhecíamos. Da nossa primeira conversa descobrimos que ela era filha de emigrantes, que era transmontana, que ouvia as cassetes da Amália nas viagens intermináveis até Portugal…e que eu adoro música do Mundo…a minha família é do Douro e de Trás os Montes, e que desde que vim para Bruxelas, mergulho na música Portuguesa reconhecendo-lhe uma enorme qualidade.

Ditas todas estas coisas…decidimos tocar o Gaivota…que nos pareceu o terreno comum de todos estes caminhos cruzados.

Lembro-me desse instante em que a Nicole começou a cantar para toda esta gente que não entendia nada do que ela dizia…mas que ficou tão emocionada quanto eu…

Quando chegou o Sebastien, decidimos fazer um arranjo com as cordas: Violino e contrabaixo.

12. Barco Negro. Esta era uma das canções que o público das noites Portuguesas de St Gilles mais gostava. Na altura o arranjo era guitarra e contrabaixo. Decidimos em estúdio preparar algo mais etéreo…mais abstracto..e onde a voz da Nicole pudesse tomar todo ou quase todo o espaço. O som da índia encaixou por evocar o vento…as viagens, barcos, saudades…

Decidimos fechar o disco com este tema por ser o mais improvisado, o que foge mais do formato canção e o que promete mais a nível das sensações.

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Rui Dinis
Portugal

Rui Dinis é um bi-pai 'alentejano' nascido em Lisboa no ano de 1970, dedicado desde Janeiro de 2004 à divulgação da música e dos músicos portugueses.

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