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[Especial Rodrigo Amado] Rodrigo Amado em “Motion Trio”, 2009

Por em 23 Dez 2015

O ano de 2009 não terminaria sem Rodrigo Amado nos oferecer mais um disco. “Motion Trio”, celebra o feliz encontro do saxofonista com Miguel Mira e Gabriel Ferrandini. Começava uma nova era no percurso musical de Rodrigo Amado:

motiontriora

Rodrigo Amado – “Motion Trio” (European Echoes, 2009)

Gravado em Julho de 2009 e editado pouco tempo depois, este disco marca o início de uma aventura incrível partilhada com o Miguel Mira e o Gabriel Ferrandini. De alguma forma, marca também o início de uma nova era na cena da música improvisada e do jazz criativo lisboeta, pelas ligações que foi criando e pelas portas que foi abrindo. Alguns anos atrás, apresentado por uma amiga comum, fui convidado a participar numa jam session em casa do Miguel Mira. A empatia foi imediata e passei a ter uma presença regular nessas sessões. Aquilo nem era bem uma jam session, era mais uma enorme festa que acontecia habitualmente aos domingos e que começava com um jantar onde se reuniam os músicos e um grupo grande de amigos que vinha para assistir. Esses jantares eram, por si só, épicos. Depois íamos para casa do Miguel, uma casa enorme, linda, no meio do campo, sem preocupações com o ruído para os vizinhos, e tocávamos toda a noite até aguentar, muitas vezes até altas horas da madrugada, com os músicos a alternarem em formaçoes definidas no momento. Essas sessões repetiram-se durante mais de 2 anos, com a presença regular de músicos como o João Lucas, Rui Horta Santos, José Parrinha, Eduardo Chagas, entre muitos outros. Foi numa dessas sessões que apareceu um miúdo que tocava bateria, o Gabriel Ferrandini, com pouco mais de 20 anos e uma forma de tocar invulgarmente diferente e consistente. O impacto foi imediato. Pouco tempo depois formámos o Motion Trio, concretizando um desejo que eu já tinha há anos – o de ter uma working band para trabalhar de forma intensa e regular. Durante bastante tempo ensaiavamos no Teatro Ibérico, no palco principal. Era O SÌTIO perfeito para se trabalhar. Era também um alto luxo pelo qual pagávamos muito pouco e, como tal, chegou um dia ao fim. Passámos depois para a pequena sala de ensaio que existia no Trem Azul, The Kitchen, como era conhecida, por se tratar de uma antiga cozinha. Fizemos ali centenas de ensaios e o sítio começou a tornar-se um ponto de encontro – quem aparecia, tocava. Passavam por lá regularmente o Hernani Faustino, o Rodrigo Pinheiro, o Luís Lopes, o Parrinha, ou o Pedro Sousa, e gerou-se uma dinâmica de criação imparável, que continua até hoje. Eram ensaios longos e intensos. Ao fim de um tempo, o trio começou a ficar conhecido pelos concertos de alta energia, e por um tipo de improvisação com ligações profundas a uma linguagem jazz. Lembro-me de um concerto memorável no Hot Clube, num dos festivais organizados pelo Pedro Costa e pelo Pedro Rocha Santos, em que o impacto da música foi tão grande que ficámos os três com a certeza de que este era um projecto para continuar e para desenvolver e preservar. É isso que temos feito até hoje, apesar dos previsíveis altos e baixos e das dificuldades de nos encontrarmos num país periférico como Portugal. Foi também nesta altura que defini como principal objectivo conseguir entrar de forma regular no circuito europeu de concertos e clubes. Era essa a única forma de conseguir subsistir apenas a tocar (e a fotografar…e a escrever).

Rodrigo Amado

Artigos anteriores:

2002 Lisbon Improvisation Players ‎– “Live_LxMeskla” (Clean Feed) Ler

2003 Rodrigo Amado, Carlos Zíngaro e Ken Filiano – “The Space Between” (Clean Feed) Ler

2004 Lisbon Improvisation Players – “Motion” (Clean Feed) Ler

2006 Lisbon Improvisation Players – “Spiritualized” (Clean Feed) Ler

2006 Rodrigo Amado, Kent Kessler e Paal Nilssen-Love – “Teatro” (European Echoes, 2006) Ler

2007 Rodrigo Amado, Carlos Zíngaro, Tomas Ulrich e Ken Filiano – “Surface” (European Echoes, 2007) Ler

2009 Rodrigo Amado, Kent Kessler e Paal Nilssen-Love – “The Abstract Truth” (European Echoes, 2009) Ler

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Rui Dinis
Portugal

Rui Dinis é um bi-pai 'alentejano' nascido em Lisboa no ano de 1970, dedicado desde Janeiro de 2004 à divulgação da música e dos músicos portugueses.

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Por decisão pessoal, o autor deste blogue não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.