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[Especial Rodrigo Amado] Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano em “This Is Our Language”, 2015

Por em 7 Jan 2016

E chegámos ao fim deste extraordinário especial sobre a vida e obra do saxofonista  Rodrigo Amado. Foi um enorme prazer disponibilizar neste espaço os textos que o Rodrigo foi escrevendo ao longo destas últimas três semanas. Muito obrigado.

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Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano – “This Is Our Language” (Not Two Records, 2015)

Falar deste disco, editado o ano passado, implica recuar até ao final de 2012, um dos períodos mais intensos da minha vida. Nessa altura preparava-me para inaugurar “Un Certain Malaise”, a minha 4ª exposição individual de fotografia, desta vez no Museu da Electricidade, em Lisboa. Para trás ficavam “Close Closer”, na Kameraphoto, em 2007, “Searching For Adam”, na Galeria Módulo, em 2008, e “East Coasting”, também na Módulo, em 2009 (passou ainda pelo Museu da Imagem, em Braga). Nesta exposição, com imagens tiradas em cidades europeias como Berlim, Moscovo, Varsóvia e Copenhaga, foi-me dada a hipótese de editar um livro, oportunidade que agarrei sem hesitar. Fiz um convite improvável ao Gonçalo M. Tavares que, surpreendentemente, aceitou e editei o meu primeiro livro de fotografia com textos inéditos do Gonçalo. Para além disso, como se já não bastassem motivos de stress e preocupação, marquei dois concertos; um para o dia da inauguração, 29 de Novembro de 2012, com os Lisbon Improvisation Players (Carlos Zíngaro, Rodrigo Pinheiro, Miguel Mira e Gabriel Ferrandini), tendo como convidado super especial o Joe McPhee; e um outro, dois dias depois, no CCB, com o quarteto que gravou This Is Our Language. Ter o Joe ao meu lado naquele dia tão especial foi bastante importante e acho que a energia dele, de absoluta paz, passou para mim. Estive super tranquilo e a inauguração não podia ter corrido melhor. Foi uma festa. O Joe é um músico cuja obra ainda hoje continuo a descobrir. Não há, como no caso do Ornette, um disco específico que me tenha influenciado particularmente, mas sim toda a sua música, e muito particularmente a personalidade como improvisador, a criatividade inesgotável. É também uma referência como pessoa, com uma energia e alegria contagiantes. Tem 76 anos (!?) e parece um miúdo. Encontrei-o por diversas vezes em Nova Iorque e em todas essas ocasiões senti uma empatia imediata. Quando o Joe chegou a Lisboa para tocar com os Lisbon Improvisation Players no Museu da Electricidade, uns dias antes do concerto do CCB, foi como se já nos conhecêssemos há largos anos, e tocar com ele foi tão natural como tinha imaginado que seria. Sinto que essa cumplicidade passou para a música que gravámos no estúdio, no dia seguinte ao concerto. Este foi o último disco que editei (na mesma altura foi editada a minha última colaboração com os Black Bombaim, Live At Casazul, também com o Isaiah Mitchell e o Shela) e encontro-me agora em fase de produção e misturas de quatro novos álbuns. Tal como já aconteceu no passado por diversas vezes, o período que se segue a um período de edições é de reflexão, uma altura em que questiono qual o caminho a seguir, quais as prioridades, quais os desafios que pretendo atacar. Isso é muito importante para manter o que faço ligado à realidade, vital. Aquilo que toco e a forma como integro melodia, harmonia e ritmo no meu discurso é totalmente intuitiva, nada estudada ou premeditada, e é influenciada por uma diversidade imensa de sons, do jazz ao hip-hop, rock, pop, clássica contemporânea, folk, funk, música brasileira, ambient, noise, improvisação livre… estou sempre a ouvir música e a descobrir novos discos, novos sons. Interessa-me isso, essa verdade – o que é que eu, a viver aqui neste período específico do tempo, a ouvir toda esta música, vou tocar? Quem é que eu sou, musicalmente? Como é que vou conseguir, no momento de tocar, esvaziar-me de todas estas influências e fazer algo que seja meu?

Rodrigo Amado

Artigos anteriores:

2002 Lisbon Improvisation Players ‎– “Live_LxMeskla” (Clean Feed) Ler

2003 Rodrigo Amado, Carlos Zíngaro e Ken Filiano – “The Space Between” (Clean Feed) Ler

2004 Lisbon Improvisation Players – “Motion” (Clean Feed) Ler

2006 Lisbon Improvisation Players – “Spiritualized” (Clean Feed) Ler

2006 Rodrigo Amado, Kent Kessler e Paal Nilssen-Love – “Teatro” (European Echoes, 2006) Ler

2007 Rodrigo Amado, Carlos Zíngaro, Tomas Ulrich e Ken Filiano – “Surface” (European Echoes, 2007) Ler

2009 Rodrigo Amado, Kent Kessler e Paal Nilssen-Love – “The Abstract Truth” (European Echoes, 2009) Ler

2009 Rodrigo Amado – “Motion Trio” (European Echoes, 2009) Ler

2010 Rodrigo Amado, Taylor Ho Bynum, John Hébert e Gerald Cleaver – “Searching for Adam” (Not Two Records) Ler

2012 Rodrigo Amado Motion Trio featuring Jeb Bishop – “Burning Live at Jazz ao Centro” (JACC Records) Ler

2013 Rodrigo Amado Motion Trio featuring Jeb Bishop – “The Flame Alphabet” (Not Two Records) Ler

2014 Rodrigo Amado Motion Trio featuring Peter Evans – “Live in Lisbon” (NoBusiness Records) Ler

2014 Rodrigo Amado Motion Trio featuring Peter Evans – “The Freedom Principle” (NoBusiness Records) Ler

2014 Rodrigo Amado Wire Quartet – “Wire Quartet” (Clean Feed Records) Ler

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Rui Dinis
Portugal

Rui Dinis é um bi-pai 'alentejano' nascido em Lisboa no ano de 1970, dedicado desde Janeiro de 2004 à divulgação da música e dos músicos portugueses.

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