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É a “Rebaldaria” dos Razia, faixa a faixa

Por em 28 Out 2014

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Enquanto se espera pelo concerto de apresentação no Sabotage Club, no próximo dia 30 de Outubro (quinta-feira), às 22h, os Razia apresentaram-nos o seu novo “Rebaldaria”, faixa a faixa.

Toda a Vida Foste um Merdas
A faixa de abertura de “Rebaldaria” é uma das que tem mais receptividade nos concertos. Nasceu com um sms do vocalista Gonçalo Taborda ao letrista Tiago Carrasco: “Tens de escrever uma música que diga ‘toda a vida foste um merdas’. Gonçalo estaria provavelmente irritado com alguém. A letra refere-se a todos os tipos que, desde os tempos de escola, não têm ideais, relacionam-se com os mais poderosos e populares, mesmo que estes sejam pulhas e crápulas. A música, composta por Pedro Blás, é uma das mais aceleradas do álbum e tem um dos refrões que mais fica no ouvido.

42
O 42 é o autocarro que liga a Madredeus à Ajuda, atravessando a cidade de uma ponta à outra. Passava justamente no bairro de São João, de onde vem a formação inicial dos Razia, sendo, portanto, o autocarro usado pelos elementos da banda nas idas para a escola, universidade, encontros e saídas nocturnas. Nos anos 90, esta carreira passava (e ainda passa) pela zona da Curraleira e do Casal Ventoso, os dois maiores pontos de venda de heroína na cidade de Lisboa. Assim, era habitual ver os assentos traseiros do 42 repletos de toxicodependentes, que partilhavam o meio de transporte com as velhotas e os miúdos do bairro. Muitos deles caíam no percurso, o autocarro parava, as pessoas queixavam-se do cheiro. Esta faixa versa sobre o trajecto de um heroinómano no 42.

Politiquices
“Politiquices” foi uma ideia do guitarrista David Barroso. As primeiras estrofes eram dirigidas ao então irrevogavelmente Ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas. A letra foi então desenvolvida por David e pelo letrista e alargada a todos os políticos populistas e oportunistas e aos absurdos da política portuguesa. Basicamente, dá voz ao que todos sentimos quando assistimos aos telejornais e ouvimos promessas falsas, vemos acções de campanha mesquinha e inócuas, beijinhos a reformadas e a peixeiras. É um hino contra a corrupção e as fraudes, as ligações entre a política e a banca. No álbum, esta música conta com a participação de Virgílio, o vocalista de Ervas Daninhas.

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Obviamente Demito-me
É a música mais antiga de “Rebaldaria”, escrita e composta em 2009. Inspirada na frase de Humberto Delgado quando questionado sobre o que faria a Salazar se ganhasse as eleições presidenciais – “Obviamente, demito-o” -, esta faixa incentiva todos os trabalhadores explorados pela entidade patronal a demitirem-se e a procurar uma alternativa que os faça mais felizes. Foi escrita depois de um dos elementos da banda ter exigido melhores condições e do pedido ter sido recusado. Contém também uma crítica à geração de 74, por ter lutado pela igualdade e por ser agora a que mais desigualdades promove.

Fugitivo
“Vou fugir, para um lugar distante, onde possa ser rico, charmoso e brilhante”. O refrão de “Fugitivo” refere-se às expectativas dos jovens portugueses obrigados a emigrar para encontrarem um lugar ao sol. Nos últimos anos, mais de 200 mil portugueses, muitos deles licenciados, mestrados ou doutorados, emigraram por não terem emprego nem esperança de conseguirem formar família em Portugal. Os próprios “Razia” foram vítimas deste fenómeno: Pedro Blás, ex-guitarrista do grupo, rumou a Luanda para conseguir um salário que seria utópico em Portugal. Mas não é um “fugitivo”. A utilização deste termo para o título da faixa é uma crítica aos que pensam que os que saem de Portugal o fazem por escolha, abandonando o país. Não. Os Razia acreditam que poucos são os que deixam as suas famílias e amigos sem terem uma razão muito forte.

Lisboa
É uma homenagem à cidade da banda. O nome original desta faixa era “Fado Punk”, porque a letra tocava bastante nos sentimentos transmitidos pelo fado: saudade, nostalgia e amor por Lisboa. Foi escrita em 2010, em Joanesburgo, quando um dos elementos da banda queria voltar para casa e não tinha dinheiro para o voo. Fala da estranheza de ser estrangeiro, dos símbolos de Lisboa e da necessidade de protecção que só ela pode dar.

Amanhã vou Trabalhar
A base desta faixa é das mais antigas do álbum, ainda do tempo em que os “Razia” ensaiavam em ambiente de rebaldaria num estúdio em Odivelas, em 2009. No entanto, só foi finalizada uns anos mais tarde. Esta música nasceu dos desabafos nos ensaios nocturnos: “Fo*%&, amanhã vou trabalhar e não me apetece nada”. Partindo deste mote, construiu-se uma música que conta a história de algo que já aconteceu a toda a gente: saltar da cama sem a mínima vontade de produzir.

rebaldaria

Não Fiques Parado
Se “Rebaldaria” tivesse um primeiro single definido, não fiques parado teria de ser um dos candidatos mais fortes. Talvez pelos acordes melódicos e alegres, ou pelo refrão catchy. Uma coisa é certa: esta música faz com que toda a gente dê uns saltinhos, ninguém fica quieto. “Não fiques parado” é o lema que os Razia transmitem a todos os que têm um problema, se sentem inertes ou letárgicos e precisam da ajuda de um amigo. A “revolução” de que se fala na música não é política, neste caso, mas sim de movimento, de alegria, de subversão.

Bar Paraíso
Há pessoas que perguntam onde fica o Bar Paraíso. Mas este bar, tal como o Paraíso, não existe. É uma metáfora para o bar a que muitos vão todos os dias quando se sentem em baixo. Fala dum daqueles períodos em que se procura um bar com a sensação de que lá dentro se encontra a alegria, a solução, o fim da tristeza. Algumas vezes, sim, encontra-se o Paraíso, mas na maioria dos casos não se acha mais que uma valente bebedeira e um regresso a casa sem nada de novo. É nesse mundo que fica o Bar Paraíso.

Tu Vais a Todas
Acordar, trabalhar, almoço combinado, futebol com os amigos, encontro ao jantar, ir ao concerto, cinema com a namorada, festa hoje, festa amanhã, trabalhar mais, dormir menos, acordar, trabalhar, família, jantar, copos, mais copos, vomitar, acordar, trabalhar. É neste ritmo frenético que se canta esta música sobre uma daquelas pessoas que vive a 1000 à hora, que quer em estar em todos os lugares e viver todas as coisas. No fim, fica a dúvida se esse é o melhor estilo de vida ou se tamanho frenesim pode conduzir ao burnout.

Cabeça Perdida
“Cabeça Perdida” foi escrita e composta em 2012, na altura em que ainda se mandavam algumas pedradas no Parlamento. A música conta a história do típico filho da classe média, criado com educação e contenção, que vai acumulando frustrações durante a canção até perder a cabeça num refrão explosivo e violento. “Cabeça Perdida” é a banda sonora punk para as manifestações anti-austeridade em Lisboa, Madrid, Atenas, Roma, Dublin e Wall Street.

Porto de Abrigo
Por ser uma balada, é a música que mais foge ao registo de Rebaldaria. Todos temos um “porto de abrigo”, o local em que nos apaziguamos, em que encontramos quem nos faz sentir melhor, quem nunca nos abandonará. Neste caso, o “porto de abrigo” é a praceta antiga em que alguns dos elementos da banda se conheceram, cresceram e moldaram as suas personalidades. Sempre que acontece uma desfeita – divórcio dos pais, fim de namoros, morte de um parente -, é no “porto de abrigo” que os Razia se encontram e se recompõe. É um hino à amizade eterna.

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Rui Dinis
Portugal

Rui Dinis é um bi-pai 'alentejano' nascido em Lisboa no ano de 1970, dedicado desde Janeiro de 2004 à divulgação da música e dos músicos portugueses.

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Por decisão pessoal, o autor deste blogue não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.